segunda-feira, 22 de março de 2010
Rosa Coutinho, o Almirante Vermelho
Estamos a aproximar-nos do 25 de Abril, efeméride em que mais uma vez, este ano à sombra das comemorações da República, será lembrada a grandiosidade do movimento dos Capitães de Abril. Rosa Coutinho era um deles, o enviado do MFA a Angola, para "tratar" da descolonização, e possivelmente um escolhido da URSS para a missão. Foi pelas suas mãos que chegaram a Angola armas, e sob a sua direcção que começou a sangrenta Guerra Civil que envergonha o nosso processo de descolonização.
quarta-feira, 17 de março de 2010
Questionando o Comportamento Humano

Centrando-se na problemática da ascensão do nazismo, este filme, entre outras questões, coloca o dedo na ferida, ainda hoje cravada na alma da maioria dos alemães em primeiro lugar e dos europeus em geral: Como foi possível? Como “alinharam” os nossos pais e avós neste processo? Lembremos que Hitler chegou ao poder pela via democrática….
Parece-me que não basta explicar o horror do nazismo pela brutalidade das forças repressivas, pelo meticuloso método de controlo do pensamento dos alemães promovido pelo ministério da propaganda de Goebbels, pela pavorosa criação de um clima de medo, pela emotividade dos discursos de Hitler, pelo planeamento do holocausto, pelo tenebroso contributo do sinistro Himmler, pelo apelo ao que há de mais irracional no ser humano em tantos e tantos discursos, filmes, paradas militares …
Muito alemães ainda hoje sentem a necessidade de se justificarem permanentemente, ou através da descrição das circunstâncias em que “as coisas” ocorreram, também se afirma que as pessoas não sabiam o que se estava a passar…Existem ainda alemães que não conseguem falar deste assunto, tal é a dificuldade em verbalizar as perguntas e dúvidas que se lhes colocam perante o nascimento deste monstro no coração de um dos países europeus cultural e civilizacionalmente mais avançados. Para estes alemães e europeus aquelas explicações não são suficientes. É preciso pensarmos nos comportamentos individuais, nos actos do dia-a-dia de cada um de nós, e neste caso dos nossos antepassados recentes… Quanto a mim este filme lança questões para este debate.
Um bom exercício para tentarmos perceber melhor o que se passou e talvez para percebermos se somos Homens (e mulheres) “bons”é colocarmo-nos no lugar daquela personagem “Halder” e imaginarmos o que faríamos nós naquelas circunstâncias?
Teríamos colaborado com aquelas autoridades políticas sem hesitar, como o protagonista do filme? (é claro que a maioria dos alemães não tinha conhecimento do que se estava passar: perseguições, campos de concentração, no entanto, tinham muitas outras informações….) Mas …reparemos que Halder ( Professor universitário, homem reconhecidamente culto e informado) sabia que o seu amigo fora proibido de exercer medicina pelo simples facto de ser judeu! Volto à minha pergunta inicial: Teríamos, nós, dado ajuda aos nossos amigos?
Depois deste exercício se acharmos que não conseguiríamos fazer melhor do que ele, parece-me importante reforçar o nosso espírito de “alerta” o mesmo é dizer o nosso sentido crítico, tornarmo-nos mais “avisados”, informados e corajosos, ou seja mais humanos.
Parece-me que este “Homem do filme”, só aparentemente é bom. Porque é muito hesitante, porque se protege demais, lembremo-nos que a certa altura diz Para Maurice, que lhe pede ajuda…” Mas são eles que estão no poder!”…é como quem diz … Se eles estão no poder eu tenho que colaborar, para me defender, tenho que obedecer, não me posso prejudicar…Trata-se aqui de uma questão moral de enormíssima importância. É aqui que se estabelece a diferença entre um verdadeiro ser Humano e alguém que anda por aí, para defender a sua “vidinha”. Estarei a exagerar?
Claro que Halder (de passagem pelo campo de concentração) descobre a tragédia! Começa a sentir-se muito mal consigo próprio… esta personagem é obviamente muito diferente dos monstros que, com Hitler, organizaram o Holocausto, mas, quanto a mim, este professor universitário personifica os milhões de alemães, europeus, norte-americanos… que também tornaram possível o holocausto.
O que será então um Homem Bom? Fica a pergunta para quem quiser comentar.
Sabemos que algumas pessoas de grande coragem ajudaram de forma muito consequente os seus amigos, e em alguns casos milhares de desconhecidos. Aos meus alunos do 9ºA e 9ºB recomendo o visionamento do filme a “Lista de Schindler” (existe no centro de recursos) e uma pesquisa sobre o nosso Aristides de Sousa Mendes. Os resultados dessa pesquisa podem ser publicados aqui no “Toca a Historiar”.
Isabel Isidoro
segunda-feira, 15 de março de 2010
Palestra sobre o Holocausto
Relacionando as perseguições aos judeus, no séc. XX, com a subida ao poder do Partido Nazi na Alemanha, retratou a evolução dessas perseguições e referiu-se à Noite de Cristal, às deportações, à criação de guetos e à "Solução Final", com a criação de campos de extermínio.
Na parte final da palestra, o Dr. Amir Sagie destacou a acção e a personalidade de Aristides de Sousa Mendes, o cônsul português em Bordéus que, desobedecendo a Salazar, salvou milhares de judeus com os vistos de entrada em Portugal que passou. Valeu-lhe esta conduta um processo disciplinar, a despromoção, a reforma compulsiva e uma imensa dificuldade em sobreviver com a família de 14 filhos.
Aristides de Sousa Mendes é o único português que faz parte dos "Righteous Among the Nations" (Justos entre as Nações) no Yad Vashem Memorial, em Israel. No Verão passado tive a oportunidade de participar numa cerimónia em sua memória, neste Memorial, onde, no Jardim dos Justos, há um enorme pinheiro com o seu nome.
Após esta palestra tão interessante e as actividades que têm sido desenvolvidas à volta do tema do Holocausto, ficou nos alunos o desejo de conhecer mais sobre a cultura e a religião judaicas.
Luísa Godinho
quinta-feira, 11 de março de 2010
Testemunho de uma experiência na Alemanha de Leste
membro da Stasi, a polícia secreta da RDA


domingo, 7 de março de 2010
Palestra sobre Gago Coutinho

Os alunos do 12ºF tiveram o privilégio de muito aprender sobre o almirante, navegador, geógrafo, astrónomo, historiador..., sobre a sua vida, as suas travessias aéreas no Atlântico, as suas missões científicas em África, a delimitação de fronteiras (Timor, Angola e Moçambique), o desenvolvimento de sistemas de orientação (adaptação do sextante e criação do "corrector de rumos"), a definição do posicionamento da linha do Equador (com somente 20 metros de erro, segundo medições actuais)... bem como vários aspectos curiosos e pitorescos da sua vida.
O dr. Rui Pinto está a preparar um Doutoramento sobre Gago Coutinho, daí o seu vasto conhecimento sobre este navegador aéreo. No período dedicado às perguntas dos alunos, o professor falou ainda sobre o seu trabalho de investigador, as fontes que utiliza, as dificuldades que enfrenta...
Aconselha-se vivamente a consulta do seu blog http://gagocoutinho.wordpress.com/, pelo interesse da matéria e por toda a documentação aqui disponibilizada.
Luísa Godinho
Base de Dados sobre sociedade portuguesa
Ao longo dos anos, Francisco Manuel dos Santos desenvolve e diversifica os seus interesses: cria uma cadeia de lojas de retalho e inicia actividades na área da produção industrial. Morre em 1953.
domingo, 28 de fevereiro de 2010
"O Norte", de Miguel Esteves Cardoso
'Primeiro, as verdades.
O Norte é mais Português que Portugal.
As minhotas são as raparigas mais bonitas do País.
O Minho é a nossa província mais estragada e continua a ser a mais bela.
As festas da Nossa Senhora da Agonia são as maiores e mais impressionantes
que já se viram.
Viana do Castelo é uma cidade clara. Não esconde nada. Não há uma Viana
secreta. Não há outra Viana do lado de lá. Em Viana do Castelo está
tudo à vista. A luz mostra tudo o que há para ver. É uma cidade
verde-branca.
Verde-rio e verde-mar, mas branca. Em Agosto até o verde mais escuro, que se
vê nas árvores antigas do Monte de Santa Luzia, parece tornar-se
branco ao olhar. Até o granito das casas.
Mais verdades.
No Norte a comida é melhor.
O vinho é melhor.
O serviço é melhor.
Os preços são mais baixos.
Não é difícil entrar ao calhas numa taberna, comer muito bem e pagar uma
ninharia.
Estas são as verdades do Norte de Portugal.
Mas há uma verdade maior.
É que só o Norte existe. O Sul não existe.
As partes mais bonitas de Portugal, o Alentejo, os Açores, a Madeira,
Lisboa, et caetera, existem sozinhas. O Sul é solto. Não se junta.
Não se diz que se é do Sul como se diz que se é do Norte.
No Norte dizem-se e orgulham-se de se dizer nortenhos. Quem é que se
identifica como sulista?
No Norte, as pessoas falam mais no Norte do que todos os portugueses juntos
falam de Portugal inteiro.
Os nortenhos não falam do Norte como se o Norte fosse um segundo país.
Não haja enganos.
Não falam do Norte para separá-lo de Portugal.
Falam do Norte apenas para separá-lo do resto de Portugal.
Para um nortenho, há o Norte e há o Resto. É a soma de um e de outro que
constitui Portugal.
Mas o Norte é onde Portugal começa.
Depois do Norte, Portugal limita-se a continuar, a correr por ali abaixo.
Deus nos livre, mas se se perdesse o resto do país e só ficasse o
Norte, Portugal continuaria a existir. Como país inteiro. Pátria mesmo, por
muito pequenina. No Norte.
Em contrapartida, sem o Norte, Portugal seria uma mera região da Europa.
Mais ou menos peninsular, ou insular.
É esta a verdade.
Lisboa é bonita e estranha mas é apenas uma cidade. O Alentejo é especial
mas ibérico, a Madeira é encantadora mas inglesa e os Açores
são um caso à parte. Em qualquer caso, os lisboetas não falam nem no Centro
nem no Sul - falam em Lisboa. Os alentejanos nem sequer falam do
Algarve - falam do Alentejo. As ilhas falam em si mesmas e naquela entidade
incompreensível a que chamam, qual hipermercado de mil
misturadas, Continente.
No Norte, Portugal tira de si a sua ideia e ganha corpo. Está muito
estragado, mas é um estragado português, semi-arrependido, como quem
não quer a coisa.
O Norte cheira a dinheiro e a alecrim.
O asseio não é asséptico - cheira a cunhas, a conhecimentos e a arranjinho.
Tem esse defeito e essa verdade.
Em contrapartida, a conservação fantástica de (algum) Alentejo é impecável,
porque os alentejanos são mais frios e conservadores (menos
portugueses) nessas coisas.
O Norte é feminino.
O Minho é uma menina. Tem a doçura agreste, a timidez insolente da mulher
portuguesa. Como um brinco doirado que luz numa orelha
pequenina, o Norte dá nas vistas sem se dar por isso.
As raparigas do Norte têm belezas perigosas, olhos verdes-impossíveis,
daqueles em que os versos, desde o dia em que nascem, se põem a
escrever-se sozinhos.
Têm o ar de quem pertence a si própria. Andam de mãos nas ancas. Olham de
frente. Pensam em tudo e dizem tudo o que pensam. Confiam, mas não
dão confiança. Olho para as raparigas do meu país e acho-as bonitas e
honradas, graciosas sem estarem para brincadeiras, bonitas sem serem
belas, erguidas pelo nariz, seguras pelo queixo, aprumadas, mas sem vaidade.
Acho-as verdadeiras. Acredito nelas. Gosto da vergonha delas,
da maneira como coram quando se lhes fala e da maneira como podem puxar de
um estalo ou de uma panela, quando se lhes falta ao respeito. Gosto
das pequeninas, com o cabelo puxado atrás das orelhas, e das velhas, de
carrapito perfeito, que têm os olhos endurecidos de quem passou a vida
a cuidar dos outros. Gosto dos brincos, dos sapatos, das saias. Gosto das
burguesas, vestidas à maneira, de braço enlaçado nos homens.
Fazem-me todas medo, na maneira calada como conduzem as cerimónias e os
maridos, mas gosto delas.
São mulheres que possuem; são mulheres que pertencem.
As mulheres do Norte deveriam mandar neste país.
Têm o ar de que sabem o que estão a fazer. Em Viana, durante as festas, são
as senhoras em toda a parte.
Numa procissão, numa barraca de feira, numa taberna, são elas que decidem
silenciosamente.
Trabalham três vezes mais que os homens e não lhes dão importância especial.
Só descomposturas, e mimos, e carinhos.
O Norte é a nossa verdade.
Ao princípio irritava-me que todos os nortenhos tivessem tanto orgulho no
Norte, porque me parecia que o orgulho era aleatório. Gostavam do
Norte só porque eram do Norte. Assim também eu. Ansiava por encontrar um
nortenho que preferisse Coimbra ou o Algarve, da maneira que eu,
lisboeta, prefiro o Norte. Afinal, Portugal é um caso muito sério e compete
a cada português escolher, de cabeça fria e coração quente, os
seus pedaços e pormenores.
Depois percebi.
Os nortenhos, antes de nascer, já escolheram. Já nascem escolhidos. Não
escolhem a terra onde nascem, seja Ponte de Lima ou Amarante, e apesar
de as defenderem acerrimamente, põem acima dessas terras a terra maior que é
o 'O Norte'.
Defendem o 'Norte' em Portugal como os Portugueses haviam de defender
Portugal no mundo. Este sacrifício colectivo, em que cada um adia a sua
pertença particular - o nome da sua terrinha - para poder pertencer a uma
terra maior, é comovente.
No Porto, dizem que as pessoas de Viana são melhores do que as do Porto. Em
Viana, dizem que as festas de Viana não são tão autênticas
como as de Ponte de Lima. Em Ponte de Lima dizem que a vila de Amarante
ainda é mais bonita.
O Norte não tem nome próprio. Se o tem não o diz. Quem sabe se é mais Minho
ou Trás-os-Montes, se é litoral ou interior, português ou galego?
Parece vago. Mas não é. Basta olhar para aquelas caras e para aquelas casas,
para as árvores, para os muros, ouvir aquelas vozes, sentir
aquelas mãos em cima de nós, com a terra a tremer de tanto tambor e o céu em
fogo, para adivinhar.
todos, é um nome do Norte. Não é só o nome do Porto. É a maneira
que têm de dizer 'Portugal' e 'Portugueses'. No Norte dizem-no a toda a
hora, com a maior das naturalidades. Sem complexos e sem
patrioteirismos. Como se fosse só um nome. Como 'Norte'. Como se fosse assim
que chamassem uns pelos outros. Porque é que não é assim que nos
chamamos todos?'